Seguindo no estudo do feminino, pedimos para nossa querida embaixadora Manu Barroso trazer a sua visão em relação ao feminino. Nas suas pesquisas, Manu têm desenvolvido uma pesquisa sobre o ser mulher, descolonização dos corpos, rituais, feminismo interseccional, e sobre o feminino em seu sagrado e profano jeito de existir, seu inconsciente, sua redenção e sua cura.

Agradecer e honrar as mulheres que vieram antes de nós, as que deram suas vidas para que hoje possamos ter uma identidade própria é fundamental. Elas nos ajudaram a sabermos que estamos no comando do nosso próprio barco e em que passo estamos no nosso destino. Isto é compreender que nossa vida é resultado de uma história não só familiar, mas, também, profundamente social. O feminino social como devir mulher ainda está encontrando seu lugar de corpo no mundo. Digo isso porque, apesar de já ocuparmos lugares anteriormente vistos como inóspitos e controlados por homens, nós sabemos que não queremos ocupar o mundo dessa maneira a que fomos submetidas. Queremos outra organização social, produtiva e relacional.

Reconhecemos o imenso poder criativo da mulher, mas ainda estamos decantando como ele consegue viver à sombra de uma sociedade patriarcal, regulada por um sistema em que existir inteiras vale menos que lucro.

Se você não sente isso, é apenas por um privilégio. O fato é que o devir mulher reconstrói uma sociedade mantida por um sistema feito para não ser reconstruído. A legitimidade do capital e o poder que este exerce sobre nossos corpos não sobrevive diante do poder de um feminino alinhado. Enquanto a sociedade patriarcal fere o planeta rasgando a terra com a crença da escassez, nós guardamos as sementes da biodiversidade em nossos cestos trançados pelos nossos saberes. E pacientemente regamos os sonhos com as histórias antigas que continuarão fazendo com que o feminino habite em nosso inconsciente.

Uma outra sociedade vem sendo gestada em nós. Mesmo com nosso sentir sendo afetado pela desvalorização dos nossos saberes, com nosso corpo cíclico desestruturado pelo pensamento linear, com nossa espiritualidade tendo em sua memória o arder em fogueira da inquisição. Mesmo assim, o feminino é um rio com muitos afluentes quebrando barragens, que continua seguindo para o mar, fertilizando a vida. O corpo feminino continua guardando a magia e o mistério da existência.

Guardamos as memórias de uma ancestralidade fértil que pode dar a luz à diversidade existente em uma floresta virgem. Existente em uma mulher que conhece sua inteireza, seu corpo, seus ciclos, suas dores, seus instintos e intuições, em uma mulher que tem coragem de viver a voracidade do seu coração e que não negocia com a miserabilidade do mundo patriarcal. Nessa mulher está viva a memória das sementes que trazem abundância para si e para a continuidade da vida na terra.

Seus olhos são repletos de dom, mesmo quando o sistema a quer orbitando na dor. Relampeja nela os valores da vida: estar inteira em si mesma e querer que todas estejamos.

Essa mulher nos quer vivas, mais vivas que nunca, com toda a força que a vida nasce. Você deve conhecer muitas delas. Eu conheço e lhe digo: as mulheres da Escola da Aura carregam em si essa voracidade pelo viver, desse feminino que nos faz olhar umas para as outras e querer nos ver inteiras, presentes e donas da nossa história. Felizes pelos nossos crescimentos, honrando os passos das nossas jornadas, acolhendo em nossos corações e visões o que ainda precisa ser iluminado dentro de nós.

Eu vejo nessas mulheres o instinto intuitivo do feminino vivo. Cada dia mais. Confiarmos no poder que nos habita e também honrarmos as que vieram antes de nós e deram suas vidas para sermos livres e vivermos esse poder feminino nessa terra mãe, fêmea fértil que nos dá vida. O feminino em nós acende a verdadeira fogueira interna, para contarmos histórias novas e antigas, que ninam nossas dores e surpreendem nossas possibilidades. Ele acolhe a autenticidade que encontramos nos caminhos de solitude sem soltarmos as nossas mãos. É essa força feminina, que desenraíza o pensamento patriarcal de nós e enraíza os saberes eternos guardados por mulheres, que vem sendo convocada a ser reconhecida em nós. Estar juntas é um ato revolucionário. E para honrar essa força feminina, Manuela Barroso e Celeste Chiarotti estão gestando um AURA com edição especial FEMININO. O Retiro vai acontecer de 05 a 13 de setembro de 2020, no Terra Águas Claras, Serra do Cipó/MG. Em breve todas as informações estarão no nosso site.

 

Sobre Manu

Ela é terapeuta e professora da Escola da Aura e formanda em psicanálise pós junguiana. Desde os 17 anos viaja por diversos povos, percorrendo territórios rituais e vivenciando culturas diversas em busca de um mundo com sentido, feminino e descolonial. Manu é focalizadora de Danças Circulares Sagradas, participando de diversos festivais pelo mundo e visionando e criando o Festival de Danças Circulares de Piracanga, lugar em que viveu por quase 7 anos. Atualmente vive em Fortaleza, gerindo a Naturalis, farmácia homeopática e espaço de cura, onde atende com as terapias e cursos de Leitura da Aura. Visionária dos projetos RitoCorpoTerra, de danças rituais femininas, e de jornadas de autoconhecimento e expansão para mulheres. Têm desenvolvido pesquisa sobre corpos rituais, descolonização, o ser mulher, feminismo interseccional, e sobre o feminino em seu sagrado e profano existir, seu inconsciente, sua redenção e sua cura.

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